quarentena diaries

Logo que essa ~quarentena meia bomba~ começou, eu vi no twitter alguém comentando sobre a quantidade de posts, livros, documentários e o que mais fosse surgindo contando a experiência das pessoas durante um momento histórico – e aterrorizante – da humanidade.  Se essa profecia se realizou não sei dizer, dentro da minha bolha eu só vejo as pessoas tentando viver um dia de cada vez e tentando controlar as poucas e ínfimas coisas que ainda estão no nosso controle.

Para mim, são 68 dias desde que a rotina mudou da água pro vinho. A última vez que saí pra trabalhar foi em 17 de Março e desde então o mais longe que fui foi até o antigo prédio que morava buscar uma encomenda que minha mãe mandou pra lá. Um trajeto de 3km feito com tanta apreensão que nem consegui sentir a nostalgia de voltar no lugar onde fui criada.  Vou contar que mesmo apesar da falta de coletividade, sinto um pouco de inveja das pessoas que seguem suas vidas despreocupadas com essa pandemia. Fico me perguntando se elas não sentem o estômago afundar um pouquinho a cada dia que o número de mortes aumenta e com os trabalhadores da área da saúde dando sangue, suor e lágrimas pra tentar atender a todos os doentes.

Tenho tentado me manter alheia o suficiente pra não sofrer com a situação caótica do nosso país mas sem esquecer da gravidade da situação. Eu tenho a sorte e o privilégio de manter o meu emprego, com meu salário e benefícios, de ter  uma casa confortável com um quarto só meu onde eu posso pintar e bordar como eu quiser e pais dedicados que sempre prezam pelo meu bem estar. Apesar de ranzinza sempre tive plena consciência dessas coisas mas acho que nunca estive tão aliviada e grata mesmo com as dificuldades que vinham bem antes de tudo isso acontecer.

Não vou tentar pintar essa parte da história com lentes cor-de-rosa e falar que temos que ser gratos, aproveitar para fazer x ou y enquanto tem muita gente em situações mais do que precárias lutando hoje para conseguir chegar no amanhã. Na verdade esse post é mais um lembrete meu para mim mesma de que não tenho do que reclamar, que eu tenho sorte, que eu não estou nessa situação confortável porque “eu mereci” mas porque uma série de acontecimentos que vem desde antes de eu nascer me colocaram aqui.

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