convém ligar na tomada

Não vou mentir, eu ainda tinha um tico de esperança para 2021.

Agora tudo o que eu tenho é cansaço, desânimo e uma falta de perspectiva misturada com insegurança de não conseguir ir para a próxima fase.

Parei de meditar, mal encostei nos livros que tinha separado para ler. Estou num estado terminal de apatia.

Só que ainda tem uma voz na minha cabeça, talvez meu grilo falante pessoal, que me diz pra não desistir. Que me diz para fazer aquele esforço e me exercitar, a não exagerar no doce (nem no álcool), que sente falta de ter a cabeça tranquila e o coração em paz.

Mas me falta a energia. Me falta o gatilho que transforma a intenção em atitude. E ultimamente venho me perguntando o que posso fazer para mudar, para conseguir alcançar o plug na tomada e carregar um pouco da minha bateria que já está dando sinais de não vai durar muito tempo

(eu sempre faço as piores metáforas, mas é o jeito que a minha mente funciona)

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encontrando o equilíbrio com o que me foi dado

Será que existem pessoas nesse mundo que não são sensíveis a energia?

Pergunto isso a você porque eu, de fato, sou uma pessoa extremamente sensível a energias, das coisas, dos lugares, dos outros, do universo em geral. Muito do meu comportamento é reflexo de como a minha energia conversa com a energia do lugar, dos outros (do universo) . E embora seja muito legal ter essa intuição, essa anteninha que já me fala – e acerta 9 em 10 vezes – que eu não vou me dar bem com tal pessoa ou não vou ficar confortável em x lugar, também é meio complicado quando você fica confinada a um cômodo da sua casa 90% do tempo durante a pandemia e a energia do cômodo não te deixa quieta.

 

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Foto de Shiva Smyth no Pexels

Minha mãe já apontou, e eu concordo até certo ponto, que essa inquietação se deve à insatisfação com o meu lugar no mundo no momento. Só que minha mãe não percebe, seja porque não consegue ou porque simplesmente não prestou atenção ainda, é que na nossa casa existe uma carga energética muito grande e isso não é necessariamente uma coisa ruim, mas para pessoas mais sensíveis como eu, meu pai e minha irmã, pode ser um tanto problemático se não soubermos direcionar essa energia para o nosso bem.

Eu acho que desde que o auto isolamento começou eu devo ter mudado a disposição dos móveis do meu quarto umas 20 vezes, sem nenhum exagero. Tudo isso porque minhas ambições para o meu pequeno cômodo eram grandes, o espaço é limitado e a energia complicada, então eu resolvi (tentar) aplicar o feng shui. Eu sempre achei o feng shui um assunto interessante mas nunca me aprofundei nele porque 1) é da minha natureza não me aprofundar em nada e 2) eu nunca tive um espaço só meu para poder aplicar.

Aí eu ganhei um quarto só pra mim. Um quarto com uma parede que é uma divisa do banheiro, uma janela grande demais e vizinhas com uma energia tão não-gracinha que nem todos os incensos, mantras e velas conseguem resolver. E isso essencialmente resume a dança das cadeiras que venho fazendo com meus móveis até eu aceitar as minhas limitações, fazer concessões e entender que por mais que eu queira, em 90% das vezes as condições não serão totalmente favoráveis e eu vou ter que aprimorar o meu foco para ele não ir saindo pela janela atrás de mim, exercitar minha criatividade para ela não ir pelo cano do ralo ou da descarga e principalmente flexibilizar meu jeito de pensar e de ser um pouquinho, porque eu sou 8 ou 80 e infelizmente até hoje não tirei nenhum proveito disso tudo.

Comprido demais e não leu nada? Tentei incorporar o feng shui no meu quarto, mas a composição da casa inteira impossibilita o sucesso em sua totalidade. Então quebrei a cabeça até aprender a trabalhar com o que eu tenho e considerar o que me deixa tranquila e criativa dentro disso.

 

 

quando eu penso em “casa”

Para ler ouvindo “Home” interpretado por Diana Ross

When I think of home
I think of a place where there’s love overflowing
I wish I was home
I wish I was back there with the things I been knowing

Ficar trancada em casa durante esses três meses de quarentena me fez perceber a necessidade de ter um canto meu, que reflita quem eu sou, o que eu gosto e que me deixe confortável o suficiente para criar. Claro, Vírginia Woolf já disse tudo isso e mais um pouco quando escreveu Um Teto Todo seu em 1929 e infelizmente consigo ver que pouca coisa mudou para as mulheres quase cem anos depois. Se para muita gente ter um teto qualquer que seja sobre a própria cabeça ainda é considerado um privilégio, imagina para uma mulher ter um cômodo que seja só para si.

Eu não tenho aqui a pretensão de comentar o mundo e a sociedade dos quais eu entendo tão pouco. Esse blog é, antes de mais nada, o meu teto virtual sob o qual posso escrever minhas impressões baseada na minha experiência de vida que tem sido muito confortável e sem grandes dificuldades. Mas é exatamente por ter essa noção do quão privilegiada eu sou, que me pego cada vez mais grata por ter um teto todo meu. Onde eu posso “mandar e desmandar” e fazer o que me der na telha sem precisar da aprovação de ninguém.

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And just maybe I can convince time to slow up
Giving me enough time in my life to grow up
Time be my friend, let me start again

É claro que ainda morando com meus pais isso tudo fica ainda mais fácil, mas tenho que agradecer também pela liberdade que me é dada sendo uma pessoa ainda tão dependente dos meus progenitores. E sendo obrigada a passar tanto tempo dentro do meu quarto e da minha casa, dediquei boa parte do meu tempo e dinheiro a deixar tudo  mais meu possível. E é por isso que faz um tempo eu tenho tido vontade de ler, escrever, tirar fotos e até cantar (por pior que eu cante).

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Apesar de sempre ter uma lista de meia dúzia de coisas que gostaria de mudar ou melhorar, eu sou extremamente grata de ter esse privilégio de poder não só ter um lugar para chamar de minha casa, mas de também ter, dentro dessa casa, um espaço que reflete minha essência e que eu posso mudar e renovar conforme eu mesma vou mudando. 

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Quando eu penso em casa eu penso nas paredes azul claro do meu quarto, dos móveis brancos recheados com cores das minhas roupas, livros e decoração. Eu penso no sol do fim de tarde que reflete dourado em cada canto e do vento que sopra às vezes quente, às vezes frio. Eu penso na minha cama e nas minhas almofadas e no cheiro dos incensos que ficam na gaveta da mesa de cabeceira. Eu penso na sensação de paz e aconchego e no descanso que sempre vez confortável e seguro.

And I’ve learned
That we must look inside our hearts
To find a world full of love
Like yours
Like me