Tenho o meu próprio tempo…

Quero ler mais, por que? Porque gosto de ler, porque gosto de me envolver numa história ou de aprender uma coisa nova.

Mas medir meu hábito pela régua dos outros é sempre uma merda. Porque aí surge a comparação, surge a ânsia de querer acompanhar alguém cuja rotina pode ser o total oposto da minha… E daí? Como que faz?

Apesar de acreditar e entender o poder da disciplina e de um planejamento diário de atividades, se ler, para mim, é um hobby, nada mais justo do que fazer quando me der na telha certo? Certo.

Eu sinto saudade de ler, sinto saudade de escrever. Quero gastar meu tempo de um jeito que me satisfaça mas quero fazer tudo no meu tempo.

(talvez isso não faça nenhum sentido mas talvez o sentido seja o sentimento comum)

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o bicho da positividade

Um pequeno desabafo:

Tem uma coisa que não entendo, nesse povo que insiste em dizer que 2020 não foi um ano ruim. Que temos que ver o lado bom das coisas e não focar em todo o mal que aconteceu nesses 366 dias.

Tenho vontade de pegar essas pessoas pela mão, sentar na frente do computador e listar as matérias com todas as desgraças que ocorreram nessas 52 semanas que ainda nem chegaram ao fim e perguntar: o que tem de bom nisso?

Ter uma vida confortável e com alguns privilégios me possibilitou não sentir tanto os impactos negativos desse ano. Mas ainda assim é impossível fingir não ver as coisas tristes, que causam revolta ou nos deixam uma sensação de desamparo. Será que “só ver o lado bom” é realmente a resposta?

Será que ignorar todos os problemas em nome das “good vibes” realmente melhora algo? Fica aí o questionamento.

obra de arte feita por eu mesma

[Na Estante] Tudo nela Brilha e Queima – Ryane Leão

O real motivo de eu ter tirado esse blog da prateleira mais empoeirada do meu canto da internet é que no começo do ano eu li A Terra Inteira e o Céu Infinito da Ruth Ozeki, um livro que me impactou de tal forma que eu precisava compartilhar meus sentimentos com qualquer pessoa que pudesse passar por aqui.

Desde então eu já li e reli alguns livros esse ano, me mantendo fiel a minha meta de retomar o hábito de leitura e numa dessas, acabei encontrando esse livro de poesias de uma autora nacional que me deixou sem fôlego de tanta emoção. Tudo Nela Brilha e Queima é o tipo de livro que dá vontade de grifar inteirinho e mesmo lendo na versão digital do meu kindle foi basicamente isso que eu fiz.

A Ryane Leão é mulher negra, poeta e professora cuiabana que vive em são paulo. Publica seus escritos em lambe-lambe e na internet com o projeto onde jazz meu coração. Além disso, escreve em blogs autorais há mais de dez anos e recita suas poesias nos saraus e slams da cidade. Seu trabalho é pautado na resistência das mulheres e focado na luta e no fortalecimento pela arte e pela educação. A autora também é do axé. (fonte Google Books, na página do livro)

A força e delicadeza da Ryane em seus versos é algo que nos pega em cheio, acolhe ao mesmo tempo que deixa aquele gosto amargo na boca quando nos lembra das decepções e machucados que sofremos, seja amoroso, familiar ou da vida em si.

Os poemas são curtos porém profundos, capazes de se conectar com quase qualquer experiência que tanto o/a leitor/a quanto a autora tenham passado. E só digo quase porque eu, enquanto mulher branca com outros fatores, tive uma experiência de vida diferente da dela. E ainda assim pude testemunhar sua dor, sua raiva, sua vontade de vencer mesmo com todas as dificuldades a partir de suas palavras.

Tudo Nela Brilha e Queima é um livro que ilustra o ditado “não sei nem o que dizer, só sentir” e mesmo com todas as provações nos faz pensar “e graças a Deus que consigo sentir”.

125 dias

Quase 2 meses desde a primeira postagem falando sobre a atual conjuntura mundial que já não é mais tão mundial assim. Os 68 dias viraram 125, cento e vinte e cinco dias, são exatas três mil horas da minha vida que eu passei em semi confinamento. Eu vejo os jornalistas nas estações de metrô de São Paulo e penso que faz cento e vinte e dias que eu não rolo a catraca pra ir pra lugar nenhum. 

Foram 5 aniversários não comemorados de amigos – incluindo o meu – com aquela bagunça usual que envolve aglomeração, dividir bebidas, abraços e muita risada. A Fran outro dia me mostrou uma matéria que falava sobre redução de danos para as pessoas que estão começando a sofrer com esse isolamento voluntário e prolongado e, apesar de entender e até apoiar essa postura, eu particularmente ainda não consigo me desprender das nóias que envolvem sair para qualquer coisa que não seja o mercado ou a farmácia porque apesar de me alienar tanto quanto possível, ainda me espanta o número de mortes que só cresce e me preocupa o fato dos meus pais serem do grupo de risco.

125 dias depois as faltas que pesam mais, além da mera liberdade de poder ir e vir como eu bem entender, são as escolhas do cotidiano que contribuem para uma mente minimamente sã: Ir ao parque andar de bicicleta (alugada, sem ter ideia de quem possa ter usado antes de mim), sair com meus amigos para aqueles lugares de sempre, escolher descer umas estações antes do trabalho e fazer o resto do percurso a pé, ir pra academia, ir ao shoppíng com meu irmão só pra bater perna. São atividades que eu jamais poderia fazer com tranquilidade mesmo que esses lugares já estejam reabrindo.

O simples fato de não me preocupar com a saúde de quem está ao meu redor e como isso pode prejudicar a mim ou a minha família.

Vejo o governo tentando voltar a sociedade para um molde que já era errado antes, que já não funcionava antes e que está destinado a acabar algum dia, seja do jeito que for, tentando consertar uma fundação condenada, usando a população como uma coluna de apoio para que o dinheiro continue girando e foda-se se morrerem 100, 200, 500 mil pessoas. 

São 125 dias de desesperança e decepção. Quantos mais ainda virão?

these are a few of my favorite things

Falar que a vida não anda fácil é a mesma coisa que dizer que a terra é redonda.  Há quem ache que não e que é tudo intriga da oposição, mas é uma verdade incontestável.

Eu poderia fazer uma lista relativamente longa das coisas que ainda quero mudar porque não me satisfazem e dos problemas que não consigo resolver, mas outra verdade incontestável é que reclamar eternamente não vai mudar muita coisa. Por isso ando vendo a importância de celebrar – e agradecer – pelos momentos de alegria e plenitude por mais raros ou breves que eles sejam.

Lembrar que, apesar de difícil, viver é bom e experimentar as coisas do mundo fazem até as dores de cabeça valer a pena.

Conversar sobre a vida por horas a fio com um amigo querido, aproveitar o dia de sol depois de tanta chuva, conhecer um café novo num espaço gostoso, reencontrar pessoas que você viu pela última vez há uma década e capturar esses momentos numa foto. Coisas tão simples que tomamos por tão certas que quando não podemos ter ficamos desconcertados.

Esse post tinha um outro rumo antes do mundo entrar numa pandemia e todos se trancarem em casa (pelo menos os que tem esse privilégio). No entanto, apesar dos dias que já eram difíceis terem ficado ainda mais desafiadores, tentar manter uma atitude positiva ainda é um jeito de não enlouquecer. Encontrar abrigo emocional em coisas que nos trazem alegria é um jeito de lidar com a conjuntura mundial atual. Por isso vim compartilhar algumas das minhas coisas preferidas dentro de casa.

Fazer handletterig ou simplesmente escrever para limpar a mente.

deixar algumas pedras para limpara a energia do ambiente e queimar incensos ajudam quando a cabeça não para

arrumar meu quarto e deixar coisas fofas à vista

cuidar do meu cacto de estimação

[na estante] A terra inteira e o Céu Infinito – Ruth Ozeki

Uma das minhas metas de 2020 era retomar meu hábito de leitura.

É retomar meu hábito de leitura. Mas não adianta querer ler 50 livros num ano só porque em algum ponto da minha vida é algo que eu teria feito… A cada ano que passa percebo cada vez mais que muita coisa na vida é questão de qualidade, não de quantidade, e que tudo bem não ser uma pessoa dos clássicos (respeito, mas não é minha praia) e que tudo bem ficar no meu reino da ficção. Eu gosto da ficção e muitas vezes me sinto mais próxima da realidade lendo ficção do que lendo não-ficção.

Qual o impacto que um livro pode causar na gente?

Comecei 2020 com duas leituras leves, que deixam o coração quentinho mesmo nos momentos mais difíceis: Anexos da Rainbow Rowell e Carry On também da Rainbow Rowell. Comentei que se passasse o ano de 2020 lendo somente os livros dela seria um ano “bem lido”… Só que ao desenterrar meu kindle das profundezas dos meus gadgets eletrônicos desenterrei também outros livros que em algum momento da minha vida quis ler. Dentre eles um YA bem maluco que demorei tanto pra ler que quando peguei pra terminar não lembrava de 90% do contexto dos personagens mas terminei mesmo assim porque a história, apesar de maluca, foi envolvente o suficiente.

E também no kindle, lá pelos 24%, estava A terra inteira e o Céu Infinito, da Ruth Ozeki. Eu lembro que quando o livro foi lançado eu estava trabalhando na Saraiva e fiquei apaixonada pela arte da capa.  O contraste da grande onda branca com o tom ocre do fundo, e o próprio azul. Foi um livro que ficou na minha mente e, apesar de ter demorado 6 anos para lê-lo, fiquei muito feliz de ter sido arrebatada por essa narrativa que me emocionou de tantos jeitos diferentes que não saberia nem por onde começar a escrever.

Recomecei do zero no final de janeiro e terminei o livro na noite de quinta-feira antes do carnaval e os capítulos finais foram uma viagem muito doida e incrível e terminei a história de Ruth e Nao querendo ser uma pessoa melhor, mas também extremamente abismada como o mundo é um lugar tão terrível. Apesar de alguns fatos serem, eu acho, fictícios, o livro em si conta parte da história de um jovem estudante de filosofia que fora convocado pelo exército japonês a lutar na Segunda Guerra Mundial e se tornou um piloto kamikaze, na missão suicida de pilotar seu avião contra um navio americano no Oceano Pacífico.

Para além dos horrores “habituais” da guerra. Outra coisa me espantou na manhã seguinte enquanto escovava os dentes, a história do soldado japonês da grande guerra se passou num espaço de tempo entre 1943 e 1945. Meu avô materno já era vivo naquela época, assim como a minha avó materna e meu avô paterno e a mãe do meu pai. Mas eu pensei no meu avô materno porque eu lembrei que ele tinha nascido em 1921, ele tinha 22 anos quando a história do Haruki nº 1 do livro aconteceu, e o próprio Haruki não tinha nem chegado nos 20. Num outro mundo, aquele poderia ter sido o meu avô. E se ele tivesse morrido num ataque suicida por uma guerra da qual ele nem queria participar, eu poderia não estar aqui, escrevendo esse post depois de ter lido esse livro.

Inclusive, a teoria quântica de vários mundos é abordada brevemente no livro.
Foi a parte que mais me deixou confusa embora os esforços da autora em deixar as explicações acessíveis não passaram despercebidos, até li os apêndices para entender o contexto das informações citadas na história.

“A terra inteira e o Céu infinito” é a ficção mais não-ficção que já li. A preocupação com a precisão das informações e referências inseridas é o que me sugou para a história e me mostrou o lado feio que o Japão tanto tenta esconder (uma das coisas que o livro aponta bem). Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la, mas e o povo que conhece, mas ignora? Que tenta reescrever o passado apesar das sequelas terríveis que gerou. Das cicatrizes que deixou. Fico pensando se os japoneses de hoje em dia sentem a vergonha dos seus antepassados ou se fecham em sua arrogância enquanto desprezam os cidadãos dos países a quem fizeram tanto mal.

Não posso recomendar essa leitura mais do que já estou recomendando dedicando tantas palavras assim a falar dele, mas preciso avisar que a guerra não é a única coisa terrível e pesada que ele conta, 80% do livro contem menção a ideação suicida, suicídio em si, bullying e depressão. Então aconselharia a não ler se não estiver num lugar bom, ou pelo menos tranquilo. Se bem que às vezes ler uma história com coisas que você passa pode ser catártico, não sei. Cada um é cada um.