mudando o foco

Produtividade na pandemia que dura mais de um ano é algo que a gente nem deveria estar cobrando.

Mas cobra. Dos outros, de nós. Eu me cobro todo dia por não conseguir focar em atividades que no escritório eu faria em cinco minutos mesmo com interrupções de telefone, chefe, colegas.

Tentei de tudo pra recuperar o mínimo do ritmo. Tudo em vão.

Procurei resposta na meditação, nos exercícios, na alimentação. Nada funciona.

Aí hoje eu percebi, o problema – mais um dentre tantos – era meu foco.

Eu já sabia que não estava (estou) feliz onde estou mas ainda assim estava direcionando minhas energias em preencher um espaço que já não me cabe mas tenho que ocupar porque ainda não tenho outra opção.

Meu foco deveria ser no meu bem estar, entender meu novo ritmo e traçar um novo caminho a partir daí.

Fazer o mínimo já é fazer algo. Respeitar minhas limitações é também o caminho para supera-las.

E claro que é mais fácil falar do que praticar (o que não é?)

Aos poucos estou me exercitando de novo, meditando de novo, prestando atenção no que como, não tentando achar uma cura milagrosa pro bode que tenho da minha ocupação, mas para poder me fortalecer para buscar outros caminhos, já que num momento de desespero eu já dei o primeiro passo e aprendi uma coisa nova (talvez a maior loucura que cometi em tempos).

Logo eu que sempre me achei egoísta tava aqui sofrendo por não atender aos padrões de uma sociedade que claramente não deveria ser exemplo pra ninguém.

Vai entender.

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ponto sem volta.

Meu instinto de sobrevivência não me deixa chegar ao fundo do poço.

Sempre que me sinto a ponto de perder tudo, alguma coisa no meu cérebro acende determinada a fazer qualquer coisa que me deixe melhor. O problema é quando eu volto a me sentir bem e confortável simplesmente deixo de fazer aquela coisa que me faz bem, e aí eu vou decaindo aos poucos até passar do ponto de “convém ligar na tomada” e aí meu cérebro entra no frenesi do bem estar de novo.

Como manter uma consistência e não deixar que isso seja um pico desesperado de auto cuidado? Não sei.

Só percebi nessa nova onda de que não importa quantos minutos eu medite, quantos exercícios diferentes eu faça, se eu já passei do ponto sem volta de saco cheio então é isso, não tem volta. Só resta mudar.

“Só” resta mudar.

Ah se fosse tão simples, rápido e fácil quanto falar.

Enquanto eu não consigo mudar veio aqui fazer um fluxo de consciência e perguntar se tem mais alguém aí nessa situação? Mais alguém que precisa mudar uma grande engrenagem da vida e ainda não sabe como fazer isso sem causar uma bagunça interminável. Meter o louco dessa vez não dá, então eu sigo, empurrando esse ponto sem volta até a hora de finalmente conseguir ultrapassar e começar uma outra trilha.

convém ligar na tomada

Não vou mentir, eu ainda tinha um tico de esperança para 2021.

Agora tudo o que eu tenho é cansaço, desânimo e uma falta de perspectiva misturada com insegurança de não conseguir ir para a próxima fase.

Parei de meditar, mal encostei nos livros que tinha separado para ler. Estou num estado terminal de apatia.

Só que ainda tem uma voz na minha cabeça, talvez meu grilo falante pessoal, que me diz pra não desistir. Que me diz para fazer aquele esforço e me exercitar, a não exagerar no doce (nem no álcool), que sente falta de ter a cabeça tranquila e o coração em paz.

Mas me falta a energia. Me falta o gatilho que transforma a intenção em atitude. E ultimamente venho me perguntando o que posso fazer para mudar, para conseguir alcançar o plug na tomada e carregar um pouco da minha bateria que já está dando sinais de não vai durar muito tempo

(eu sempre faço as piores metáforas, mas é o jeito que a minha mente funciona)

Tenho o meu próprio tempo…

Quero ler mais, por que? Porque gosto de ler, porque gosto de me envolver numa história ou de aprender uma coisa nova.

Mas medir meu hábito pela régua dos outros é sempre uma merda. Porque aí surge a comparação, surge a ânsia de querer acompanhar alguém cuja rotina pode ser o total oposto da minha… E daí? Como que faz?

Apesar de acreditar e entender o poder da disciplina e de um planejamento diário de atividades, se ler, para mim, é um hobby, nada mais justo do que fazer quando me der na telha certo? Certo.

Eu sinto saudade de ler, sinto saudade de escrever. Quero gastar meu tempo de um jeito que me satisfaça mas quero fazer tudo no meu tempo.

(talvez isso não faça nenhum sentido mas talvez o sentido seja o sentimento comum)

sobre perspectiva

Depois de ficar muito tempo deitada sob o sol quando abro os olhos vejo o mundo ao meu redor sob uma luz azul, depois em preto e branco e só depois de alguns minutos minha visão volta ao normal.

Não sei explicar esse acontecimento biológico mas é sempre uma experiência interessante. Ver o mundo – literalmente – com outras cores é sempre uma coisa curiosa. É quase como atualizar aquela página esperando que a informação que queremos ver apareça, mas ao invés de uma informação o que aparece é um lembrete de que nada é realmente de um jeito ou de outro, as coisas estão de um jeito e por estarem desse jeito podem ser diferentes também.

Desde que comecei a meditar eu venho mudando, ainda que pareça imperceptível aos olhos dos outros, eu sinto o meu eu cada vez mais maleável, mais calmo. É uma sensação boa, mas é um processo tão lento que se não prestar atenção não se percebe nada mesmo.

Não vou tentar aqui olhar 2020 por uma luz positiva, mas das coisas que comecei a fazer durante nossa “quarentena” para manter a sanidade… Meditar foi de longe a mais benéfica pra mim. E aos poucos venho tentando compartilhar o que eu aprendo, procurando ajudar aqueles mais próximos de mim a encontrar um momento de paz, a repensar algumas atitudes e pensamentos, nem sempre a mensagem chega mas é algo que faço sem pretensão… Afinal o primeiro passo ninguém pode dar pela gente.

Ter a coragem de mudar, de assumir nossas falhas e ao invés de criticar, procurar entender o que as causam e a partir daí começar a mudar, a passos tão lentos que parece que nem saímos do lugar. Aprendi a ser mais honesta comigo, a aceitar minha situação atual por mais que eu não goste ou esteja feliz com ela, mas é a realidade, tenho que lidar com ela de algum jeito.

E é aceitando isso que consigo começar a mudar, aos poucos ou com 20 segundos de uma coragem insana.

nem todos os que perambulam…

Acho que boa parte das pessoas deve conhecer a famosa frase “not all those who wander are lost“, que se traduz para o português como “nem todos os que vagueiam estão perdidos” dentro de um poema de Tolkien.

Essa frase sempre teve um peso importante na minha vida porque eu sempre achei que, por não estarem perdidos, aqueles que vagam tem – no fundo – uma direção certa e maior que os leva por tantos caminhos mas com um destino final.

Mas e se vagar for o caminho? Se esses que vagueiam tem como propósito explorar o mundo e tudo que há nele, sem sentir a necessidade de se prender a um caminho só? Tive essa pequena epifania durante uma meditação guiada focada em encontrar meu propósito, e não digo que uma única sessão de meditação me iluminou de tal forma, mas foi olhando para mim, me perguntando quem eu sou ou o que eu quero ser que pensei nisso. Ainda tenho internalizada essa coisa de que é necessário ter o caminho, o propósito único mas sem nunca pensar que talvez esse caminho seja percorrer vários caminhos, explorar o mundo para me encontrar e me encontrar ao explorar.

É algo que me trouxe muitos motivos para refletir e uma sensação de acolhimento que há muito eu não sentia. Existem muitos caminhos e escolher um só é o tipo de coisa que me tira o sono mas se eu puder escolher explorar sem a pressão de definir, de escolher e me permitir ficar o quanto eu quiser e partir se eu quiser. E quando digo explorar o mundo não precisa ser através de viagens, mas de assuntos, atividades e coisas variadas que posso até nunca nem ter pensado em explorar. E é ali que encontro sentido em viver e me sinto impelida a descobrir e procurar sempre mais.

Talvez…

o bicho da positividade

Um pequeno desabafo:

Tem uma coisa que não entendo, nesse povo que insiste em dizer que 2020 não foi um ano ruim. Que temos que ver o lado bom das coisas e não focar em todo o mal que aconteceu nesses 366 dias.

Tenho vontade de pegar essas pessoas pela mão, sentar na frente do computador e listar as matérias com todas as desgraças que ocorreram nessas 52 semanas que ainda nem chegaram ao fim e perguntar: o que tem de bom nisso?

Ter uma vida confortável e com alguns privilégios me possibilitou não sentir tanto os impactos negativos desse ano. Mas ainda assim é impossível fingir não ver as coisas tristes, que causam revolta ou nos deixam uma sensação de desamparo. Será que “só ver o lado bom” é realmente a resposta?

Será que ignorar todos os problemas em nome das “good vibes” realmente melhora algo? Fica aí o questionamento.

obra de arte feita por eu mesma

encontrando o equilíbrio com o que me foi dado

Será que existem pessoas nesse mundo que não são sensíveis a energia?

Pergunto isso a você porque eu, de fato, sou uma pessoa extremamente sensível a energias, das coisas, dos lugares, dos outros, do universo em geral. Muito do meu comportamento é reflexo de como a minha energia conversa com a energia do lugar, dos outros (do universo) . E embora seja muito legal ter essa intuição, essa anteninha que já me fala – e acerta 9 em 10 vezes – que eu não vou me dar bem com tal pessoa ou não vou ficar confortável em x lugar, também é meio complicado quando você fica confinada a um cômodo da sua casa 90% do tempo durante a pandemia e a energia do cômodo não te deixa quieta.

 

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Foto de Shiva Smyth no Pexels

Minha mãe já apontou, e eu concordo até certo ponto, que essa inquietação se deve à insatisfação com o meu lugar no mundo no momento. Só que minha mãe não percebe, seja porque não consegue ou porque simplesmente não prestou atenção ainda, é que na nossa casa existe uma carga energética muito grande e isso não é necessariamente uma coisa ruim, mas para pessoas mais sensíveis como eu, meu pai e minha irmã, pode ser um tanto problemático se não soubermos direcionar essa energia para o nosso bem.

Eu acho que desde que o auto isolamento começou eu devo ter mudado a disposição dos móveis do meu quarto umas 20 vezes, sem nenhum exagero. Tudo isso porque minhas ambições para o meu pequeno cômodo eram grandes, o espaço é limitado e a energia complicada, então eu resolvi (tentar) aplicar o feng shui. Eu sempre achei o feng shui um assunto interessante mas nunca me aprofundei nele porque 1) é da minha natureza não me aprofundar em nada e 2) eu nunca tive um espaço só meu para poder aplicar.

Aí eu ganhei um quarto só pra mim. Um quarto com uma parede que é uma divisa do banheiro, uma janela grande demais e vizinhas com uma energia tão não-gracinha que nem todos os incensos, mantras e velas conseguem resolver. E isso essencialmente resume a dança das cadeiras que venho fazendo com meus móveis até eu aceitar as minhas limitações, fazer concessões e entender que por mais que eu queira, em 90% das vezes as condições não serão totalmente favoráveis e eu vou ter que aprimorar o meu foco para ele não ir saindo pela janela atrás de mim, exercitar minha criatividade para ela não ir pelo cano do ralo ou da descarga e principalmente flexibilizar meu jeito de pensar e de ser um pouquinho, porque eu sou 8 ou 80 e infelizmente até hoje não tirei nenhum proveito disso tudo.

Comprido demais e não leu nada? Tentei incorporar o feng shui no meu quarto, mas a composição da casa inteira impossibilita o sucesso em sua totalidade. Então quebrei a cabeça até aprender a trabalhar com o que eu tenho e considerar o que me deixa tranquila e criativa dentro disso.

 

 

125 dias

Quase 2 meses desde a primeira postagem falando sobre a atual conjuntura mundial que já não é mais tão mundial assim. Os 68 dias viraram 125, cento e vinte e cinco dias, são exatas três mil horas da minha vida que eu passei em semi confinamento. Eu vejo os jornalistas nas estações de metrô de São Paulo e penso que faz cento e vinte e dias que eu não rolo a catraca pra ir pra lugar nenhum. 

Foram 5 aniversários não comemorados de amigos – incluindo o meu – com aquela bagunça usual que envolve aglomeração, dividir bebidas, abraços e muita risada. A Fran outro dia me mostrou uma matéria que falava sobre redução de danos para as pessoas que estão começando a sofrer com esse isolamento voluntário e prolongado e, apesar de entender e até apoiar essa postura, eu particularmente ainda não consigo me desprender das nóias que envolvem sair para qualquer coisa que não seja o mercado ou a farmácia porque apesar de me alienar tanto quanto possível, ainda me espanta o número de mortes que só cresce e me preocupa o fato dos meus pais serem do grupo de risco.

125 dias depois as faltas que pesam mais, além da mera liberdade de poder ir e vir como eu bem entender, são as escolhas do cotidiano que contribuem para uma mente minimamente sã: Ir ao parque andar de bicicleta (alugada, sem ter ideia de quem possa ter usado antes de mim), sair com meus amigos para aqueles lugares de sempre, escolher descer umas estações antes do trabalho e fazer o resto do percurso a pé, ir pra academia, ir ao shoppíng com meu irmão só pra bater perna. São atividades que eu jamais poderia fazer com tranquilidade mesmo que esses lugares já estejam reabrindo.

O simples fato de não me preocupar com a saúde de quem está ao meu redor e como isso pode prejudicar a mim ou a minha família.

Vejo o governo tentando voltar a sociedade para um molde que já era errado antes, que já não funcionava antes e que está destinado a acabar algum dia, seja do jeito que for, tentando consertar uma fundação condenada, usando a população como uma coluna de apoio para que o dinheiro continue girando e foda-se se morrerem 100, 200, 500 mil pessoas. 

São 125 dias de desesperança e decepção. Quantos mais ainda virão?

1 passo pra frente, 2 passos pra trás

Já faz algum tempo eu desisti de estipular metas para mim.

Talvez porque eu mudo de ideia no meio do caminho, talvez porque muitas vezes eu não tenho a força de vontade de ir até o final ou talvez porque sempre que eu sinto qualquer ínfimo senso de controle vem algum imprevisto e bagunça tudo. Eu não lembro a última vez que estipulei uma meta pra mim por menor ou maior que fosse.

Uma coisa que aprendi sobre mim conforme os anos vão passando é que sou – e talvez sempre seja – uma pessoa de momentos. E que nos raros momentos em que encasqueto com uma vontade eu sou capaz de traçar um plano mais ou menos certo para conseguir o que eu quero, mas se esse plano vai acontecer ou mais ainda dar certo são outros 500. Conforme os anos vão passando venho sentindo uma necessidade de ser firmar em algo, seja numa profissão, num relacionamento, num desafio a ser superado. Faz um tempo isso me acompanhar, só que por anos eu me defini em termos que até hoje eu não sei se eram mesmo meus ou se eram o que eu acreditava que deveria ser.

Essa jornada de auto-conhecimento vem ficando mais profunda a cada dia que passa e eu tenho ficado cada vez mais desesperada com a minha falta de rumo a cada ano que passa. Tento acreditar que ainda há certa beleza em não ter um norte definido e na possibilidade de me descobrir a cada nova experiência, mas ainda acho que a essa altura da minha vida eu já deveria ter uma noção melhor de quem eu sou.

Me definir não é uma coisa na qual sou particularmente boa. Se muito eu já tenho uma longa lista de coisas que eu não gosto e que não quero ser ou fazer. Há quem diga que isso por si só já é uma boa definição de mim. Mas eu ainda preciso de mais. Preciso de algumas linhas que definam os meus limites, os meus valores, os meus alicerces individuais nesse mundo onde cada vez tudo fica mais igual. Genérico. Efêmero.

Se existe algo de bom para se achar na caótica situação mundial é que passar tanto tempo presa dentro do mesmo ambiente me dá a chance de pode olhar para dentro sem maiores distrações, é encarar as quatro paredes do meu quarto e decidir o que eu quero refletido nelas, o que eu quero manter e diferir o que eu realmente preciso do que eu achava que precisava. Das intenções que eu tinha definido para 2020 essa de aprimorar meu ambiente é a única na qual estou tendo qualquer tipo de sucesso, todas as outras viram uma dança de um pra frente, dois pra trás, gira para o lado e descobre mais uma falha de caráter, vira para o outro e tenta não perder a paciência.

E vou levando essa dança com o melhor e o pior de mim.