o bicho da positividade

Um pequeno desabafo:

Tem uma coisa que não entendo, nesse povo que insiste em dizer que 2020 não foi um ano ruim. Que temos que ver o lado bom das coisas e não focar em todo o mal que aconteceu nesses 366 dias.

Tenho vontade de pegar essas pessoas pela mão, sentar na frente do computador e listar as matérias com todas as desgraças que ocorreram nessas 52 semanas que ainda nem chegaram ao fim e perguntar: o que tem de bom nisso?

Ter uma vida confortável e com alguns privilégios me possibilitou não sentir tanto os impactos negativos desse ano. Mas ainda assim é impossível fingir não ver as coisas tristes, que causam revolta ou nos deixam uma sensação de desamparo. Será que “só ver o lado bom” é realmente a resposta?

Será que ignorar todos os problemas em nome das “good vibes” realmente melhora algo? Fica aí o questionamento.

obra de arte feita por eu mesma
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[Na Estante] Tudo nela Brilha e Queima – Ryane Leão

O real motivo de eu ter tirado esse blog da prateleira mais empoeirada do meu canto da internet é que no começo do ano eu li A Terra Inteira e o Céu Infinito da Ruth Ozeki, um livro que me impactou de tal forma que eu precisava compartilhar meus sentimentos com qualquer pessoa que pudesse passar por aqui.

Desde então eu já li e reli alguns livros esse ano, me mantendo fiel a minha meta de retomar o hábito de leitura e numa dessas, acabei encontrando esse livro de poesias de uma autora nacional que me deixou sem fôlego de tanta emoção. Tudo Nela Brilha e Queima é o tipo de livro que dá vontade de grifar inteirinho e mesmo lendo na versão digital do meu kindle foi basicamente isso que eu fiz.

A Ryane Leão é mulher negra, poeta e professora cuiabana que vive em são paulo. Publica seus escritos em lambe-lambe e na internet com o projeto onde jazz meu coração. Além disso, escreve em blogs autorais há mais de dez anos e recita suas poesias nos saraus e slams da cidade. Seu trabalho é pautado na resistência das mulheres e focado na luta e no fortalecimento pela arte e pela educação. A autora também é do axé. (fonte Google Books, na página do livro)

A força e delicadeza da Ryane em seus versos é algo que nos pega em cheio, acolhe ao mesmo tempo que deixa aquele gosto amargo na boca quando nos lembra das decepções e machucados que sofremos, seja amoroso, familiar ou da vida em si.

Os poemas são curtos porém profundos, capazes de se conectar com quase qualquer experiência que tanto o/a leitor/a quanto a autora tenham passado. E só digo quase porque eu, enquanto mulher branca com outros fatores, tive uma experiência de vida diferente da dela. E ainda assim pude testemunhar sua dor, sua raiva, sua vontade de vencer mesmo com todas as dificuldades a partir de suas palavras.

Tudo Nela Brilha e Queima é um livro que ilustra o ditado “não sei nem o que dizer, só sentir” e mesmo com todas as provações nos faz pensar “e graças a Deus que consigo sentir”.